Relatório Mensal do Mercado de Ações dos EUA — Julho de 2026
À primeira vista, julho foi um mês silencioso no mercado americano. Pelo índice, o S&P 500 fechou em +0,17% e o Dow Jones em +0,37%, praticamente sem variação. Por dentro, porém, ocorreu uma das maiores realocações de capital do ano. Enquanto o Nasdaq 100 caiu -5,13%, o setor de energia subiu +12,76% e o petróleo disparou +25,08%. A superfície estava calma, mas a correnteza por baixo era forte…
- Dow em alta recorde, Nasdaq em correção — O Dow +0,37% e o S&P 500 +0,17% se seguraram, enquanto o Nasdaq 100 caiu -5,13% e o Russell 2000 recuou -2,71%, com o dinheiro migrando das ações de crescimento para energia, finanças e setores defensivos.
- O Oriente Médio empurrou o petróleo para cima — O bloqueio do Estreito de Ormuz e o impasse sobre ataques aéreos envolvendo o Irã fizeram o petróleo disparar +25,08%, levando o setor de energia, que estava em 10º no mês anterior, ao topo do ranking com +12,76%.
- Choque no emprego e 74,9% de batidas nas estimativas — O emprego de junho veio em 57 mil, metade da estimativa de 110 mil. Dos resultados de 1.185 empresas, 74,9% superaram as projeções, mas o setor de chips superou as estimativas e mesmo assim despencou.
1. Desempenho dos Índices
Índice do Medo (^VIX) — média mensal 17,1 · máxima no mês 20,88 (normal entre 14~16)
Em julho, o mercado americano apresentou um quadro diferente em cada índice. O Dow Jones subiu +0,37% e o S&P 500 +0,17%, variações modestas, mas o Nasdaq 100 caiu -5,13%, afundando sozinho, e o Russell 2000, que reúne small caps, também ficou fraco com -2,71%. Uma diferença superior a 5 pontos percentuais entre os índices significa que o mercado não subiu ou caiu em bloco, mas sim que houve uma realocação interna de recursos. Na prática, o dinheiro que saiu dos chips de inteligência artificial migrou para energia, finanças e bens de consumo essenciais. O Índice do Medo (VIX, indicador de aversão ao risco, que normalmente fica entre 14 e 16) teve média mensal de 17,10, chegou a 20,88 na máxima intradiária e fechou em 15,99, mostrando que a tensão que cresceu no meio do mês se acalmou no encerramento. No acumulado do ano, o Nasdaq 100 segue na frente com +12,14% e o Russell 2000 com +18,51%, o que mostra que a queda deste mês teve forte caráter de devolução parcial dos ganhos anteriores.
Renda fixa, dólar e commodities — Petróleo abalou juros e dólar
O mercado de ativos foi puxado pelo petróleo. O petróleo disparou +25,08%. Isso porque o bloqueio do Estreito de Ormuz e o impasse em torno do Irã continuaram, testando a linha de US$ 100 por barril. Já os títulos do Tesouro de 10 anos cederam -1,15%. A queda nos preços dos títulos significa que os juros subiram, e a preocupação de que o petróleo reacenderia a inflação pressionou as expectativas de corte de juros. O índice do dólar enfraqueceu -1,57%, e o ouro ficou praticamente estável em +0,25%. Em meses de estresse, o ouro costuma subir, mas um ativo que não paga juros perde atratividade quando os juros sobem juntos. A estagnação do ouro neste mês reflete exatamente esse efeito de compensação.
2. Rotação Setorial
O setor de energia, que estava em 10º no mês passado, saltou direto para o topo com +12,76%, enquanto o de industriais, que liderava em junho, caiu -1,92% e despencou para a 10ª posição.
A arrancada do setor de energia reflete diretamente a disparada do petróleo. Na sequência vieram Finanças (+3,94%), Bens de Consumo Essenciais (+2,10%), Imobiliário (+2,01%) e Saúde (+1,89%), e esses foram os únicos setores no verde. Os outros seis recuaram. Na ponta oposta ficou Tecnologia (-5,53%). O peso dos investimentos em inteligência artificial somado às vendas de chips fez com que fosse o único setor a cair mais de 5%. Também chama atenção que a Saúde, que estava em 2º no mês anterior, caiu para 5º, e Utilidades (-0,94%), que era 3º, recuou para 6º. Os índices mal se moveram, mas a diferença entre o 1º e o 11º lugares superou 18 pontos percentuais, o que resume bem o caráter deste mês. Não foi um mês em que o mercado subiu ou caiu, mas um mês em que a posição de cada um definiu o resultado.
3. Indicadores Econômicos × Reação do Mercado
O indicador que moveu o mercado neste mês foi apenas o dado de emprego no início do mês. O número, que veio com a metade do esperado, acabou aliviando o temor de alta de juros e sustentou os índices.
O emprego não agrícola de junho veio em 57 mil, metade da estimativa de 110 mil. No dia da divulgação, o S&P 500 oscilou brevemente em -0,13%, mas no dia seguinte subiu +0,87%, e o Índice do Medo caiu -2,65%. Isso porque o mercado interpretou que, com o emprego esfriando, o Fed tem menos motivo para elevar os juros.
4. Maiores Movimentações em Large Caps
Os 10 maiores high caps em alta e baixa no mês, considerando empresas com valor de mercado acima de US$ 20 bilhões.
Dois perfis dominaram o topo das altas. De um lado, empresas de energia que capturaram diretamente a disparada do petróleo (EQNR·SU·BP) e, de outro, empresas de serviços e finanças que entregaram bons resultados (THC·PYPL·CTSH·ACN·CBOE). Já a ponta negativa se concentrou em chips e ações de crescimento aeroespacial e de jogos (SNDK·GFS·KLAC·RKLB·ASTS·SPCX·RBLX). O ponto que chama atenção é que os resultados dessas empresas em queda não foram ruins. GLW superou as estimativas em 3,5%, KLAC em 5,1% e RBLX em 21,9%, e mesmo assim todas despencaram mais de 30%. Por outro lado, o líder das altas, CTSH, ficou 0,7% abaixo das estimativas e, ainda assim, saltou +11,35% no dia da divulgação. O que definiu as ações neste mês não foi se os resultados foram bons ou ruins, mas o quanto esses resultados já estavam precificados.
5. Resumo da Temporada de Resultados
A THC reportou resultados em 23 de julho superando as estimativas em 43,5%. No dia seguinte, a ação subiu +17,17%, e quase metade da alta mensal de +33,25% veio desse único dia. Como o setor de saúde como um todo subiu apenas +1,89% no mês, essa alta veio da força do resultado individual, não do fluxo do setor.
A RBLX reportou resultados em 30 de julho superando as estimativas em 21,9%. No entanto, logo no dia seguinte, as ações despencaram -26,85%, fechando o mês com -38,57% e ficando em 2º na lista de maiores baixas. O caso que ilustra com maior clareza o caráter deste mês: bons resultados não garantem a valorização.
Das 1.185 empresas que reportaram resultados em julho, 74,9% superaram as estimativas do mercado, 24,6% ficaram abaixo e o surprise médio foi de +6,06%. Pelos números, foi um trimestre bom. Por setor, a taxa de beat foi liderada por Industriais 85,3%, Tecnologia 82,8%, Utilidades 80,0% e Saúde 79,3%, enquanto Imobiliário 59,1%, Comunicação 62,5% e Energia 63,5% ficaram na parte de baixo. Mas as ações se moveram na direção oposta. O setor de Tecnologia, com a segunda maior taxa de beat, fechou em último com -5,53%, enquanto Energia, com a terceira menor taxa de beat, liderou com +12,76%. O mercado repetiu durante todo o mês a lição de que, mesmo quando os resultados superam as estimativas, se as expectativas já eram ainda mais altas, a ação cai.
6. Avaliação Mensal
Em julho, o mercado americano foi um mês silencioso quando visto apenas pelos índices. O S&P 500 fechou em +0,17% e o Dow Jones em +0,37%, praticamente sem variação. Mas por dentro ocorreu uma das maiores realocações de capital do ano. Enquanto o Nasdaq 100 caiu -5,13%, o setor de energia subiu +12,76% e o petróleo disparou +25,08%. Um mês de superfície calma, mas com correntezas fortes por baixo.
Esse caráter já ficou evidente logo no início. No primeiro pregão do segundo semestre, em 1º de julho, a Meta subiu 8,85% com a notícia de sua entrada no negócio de nuvem, enquanto ações de chips como Micron e Corning despencaram dois dígitos por receios de excesso de capacidade de produção. Foi uma rotação brusca de chips de inteligência artificial para software. No dia seguinte, 2 de julho, o emprego de junho veio em 57 mil, metade da estimativa de 110 mil. Com a queda da pressão para alta de juros, o mercado se dividiu: o Dow subiu 1,14% e renovou máxima histórica, enquanto o Nasdaq caiu e os chips sofreram vendas por mais um dia.
No fim da primeira semana, veio a reação. Em 6 de julho, o Dow fechou pela primeira vez acima dos 53.000 pontos, e o índice de chips saltou 2,68% com compras na baixa. Em 9 de julho, o anúncio de US$ 250 bilhões em investimentos da Micron nos EUA e, em 10 de julho, a estreia da listagem da SK Hynix nos EUA com forte alta de 13% reacenderam o otimismo em memória para IA. Tomando apenas esse momento, parecia que a lógica de alta do primeiro semestre continuava intacta.
O que quebrou o fluxo foi o Oriente Médio. Em 7 de julho, petroleiros foram atacados no Estreito de Ormuz e o petróleo subiu mais de 4%. Em 8 de julho, EUA e Irã declararam o fim do cessar-fogo. Em 13 de julho, novo bloqueio de Ormuz. Em 20 de julho, o barril testou US$ 90. Em 23 de julho, um ataque dos houthis do Iêmen a petroleiros levou o petróleo a romper os US$ 100. O petróleo subiu durante o mês inteiro. A cada repique, o dinheiro migrava para energia e finanças, e as ações de tecnologia caras cediam recursos. Essa cadeia é o que explica por que o setor de energia, que estava em 10º no mês passado, terminou julho na liderança.
O segundo eixo foi a conta dos investimentos em inteligência artificial. Em 16 de julho, a TSMC reportou resultados recordes, mas elevou fortemente seu plano de investimentos de capital. O mercado leu isso não como sinal de crescimento, mas como preocupação com a recuperação do capital investido. No dia seguinte, o novo modelo de IA da Moonshot AI da China reacendeu o chamado "choque DeepSeek", somado à perspectiva de desaceleração do crescimento da Netflix, e o Nasdaq caiu 1,40%. Quando os resultados da Alphabet e da Tesla, divulgados na noite de 22 de julho, confirmaram o aumento dos investimentos, o Nasdaq recuou 2,15% no dia seguinte. Foi uma fase em que, não porque os resultados foram ruins, mas porque os planos de gastar mais dinheiro em si já eram negativos.
Mesmo assim, houve várias reações ao longo do caminho. Em 14 de julho, o CPI de junho ficou abaixo das estimativas e a Goldman Sachs reportou surprise nos resultados, com os três principais índices fechando no verde. Em 21 de julho, ações de memória como SanDisk e Micron dispararam entre 12% e 14%, encerrando três sessões seguidas de queda. Mas também houve dias como 15 de julho em que, embora os índices tenham subido, Micron e Dell caíram entre 8% e 10%. O movimento independente entre índices e ações foi a característica mais consistente deste mês.
O dia de maior tensão foi 29 de julho. O Fed manteve os juros, mas três membros votaram contra alta, e com o aviso de retaliação do Irã, os três índices caíram juntos. O Dow recuou 2,19% e o Índice do Medo superou 20. Foi inflação e geopolítica pesando no mesmo dia.
Nos últimos dois dias, veio a reviravolta. Em 30 de julho, a notícia de que a taxa de crescimento da receita do Azure, o negócio de nuvem da Microsoft, subiu para 43% fez as ações de chips dispararem 8,63%, encerrando seis sessões seguidas de queda do Nasdaq e levando-o a subir 2,78%. Em 31 de julho, a AWS, da Amazon, registrou crescimento de 36,7% nas receitas, o mais rápido em 18 trimestres. No entanto, no mesmo dia, a Apple caiu 7,35% após alerta sobre escassez de memória, e o juro dos títulos do Tesouro de 10 anos atingiu 4,73%, maior nível desde janeiro de 2025. A reação veio, mas o peso continuou.
O número que atravessou todo o mês foi o indicador de sentimento. O Índice de Medo e Ganância oscilou entre 32 e 49 durante todo o julho, ou seja, nunca saiu da zona de medo. Os índices estavam parados, mas os investidores permaneceram inquietos, e essa inquietação tinha dois nomes: petróleo e conta dos investimentos em IA. Mesmo com 74,9% dos resultados superando as estimativas, o setor de tecnologia ficou em último lugar, porque o que o mercado fazia este mês era reajustar expectativas, não avaliar resultados.
7. Pontos de Atenção para o Próximo Mês
Agosto será um mês em que se confirmam lado a lado os indicadores de inflação e a conta dos investimentos em IA. A questão é se a realocação de capital aberta em julho se reverterá.
- 4/8 (ter) Resultados da AMD, Caterpillar e Merck — Chips de IA e industriais entregam seus boletins no mesmo dia. Uma oportunidade de comparar diretamente a temperatura das duas frentes que se separaram em julho.
- 7/8 (sex) Divulgação do emprego e da taxa de desemprego de julho — O momento de verificar se o choque de 57 mil do início de julho foi pontual. Se vier fraco de novo, diminui o receio de alta de juros, mas cresce a preocupação com a atividade econômica.
- 12/8 (qua) Divulgação do CPI de julho — O primeiro número oficial de inflação do mês em que o petróleo subiu +25,08%. O dado mais sensível entre os indicadores do mês.
- 13/8 (qui) Resultados da Applied Materials — Pela demanda por equipamentos de chips é possível avaliar se o ciclo de investimentos em memória continua.
- 20/8 (qui) Inflação do PCE pessoal e resultados do Walmart — O indicador de inflação mais valorizado pelo Fed e o termômetro da força do consumidor saem no mesmo dia. Também coincide com a data ex-dividendos da Microsoft.
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